Bem vindos ao NB Journal, um espaço onde pensamos em voz alta, partilhamos ideias e as histórias dos projetos da NB Living.
Falamos muito sobre a evolução do nosso modelo económico e a ascensão das abordagens ESG (1). No entanto, para que a sustentabilidade não seja apenas um conceito estéril num relatório, é preciso olhar para além da narrativa. O desafio atual não é apenas reduzir o impacto, mas também redescobrir a nossa ligação com o que é essencial. Muitas vezes, na procura pelo “net-tudo”, esquecemo-nos de que o objetivo final é a regeneração e o equilíbrio real, não apenas uma meta escrita num papel.
Esta evolução começa com um reconhecimento fundamental: a nossa profunda interdependência com o mundo natural. Como se fôssemos um “nós” e uma Natureza, sem qualquer ligação ou chão comum. Mas esquecendo-nos de que a própria palavra ecologia nos lembra que fazemos parte desse mundo natural, que partilhamos uma “casa” comum ("Eco" vem do grego "Oikos", que significa “casa”).
No entanto, a verdade é que os sistemas dinâmicos, como os ciclos da água, do solo e da energia, não são meros cenários de fundo; são a infraestrutura vital que sustenta o nosso progresso. Mais do que uma visão puramente racionalista que olha para a natureza como uma fonte de recursos, estamos a aprender a valorizá-la como um sistema dinâmico do qual fazemos parte integrante. Integrar as “externalidades” (poluição, ruído, destruição de ecossistemas) ao nosso pensamento quotidiano não é apenas uma obrigação ética, mas também uma estratégia inteligente para garantir a nossa própria resiliência.
Atualmente, a biodiversidade e os serviços de ecossistema estão no centro das atenções (e ainda bem). O desafio passa por garantir que estes temas não se tornem apenas mais um item numa lista de verificação de relatórios anuais. A verdadeira ligação com o mundo natural exige mais do que comunicações apelativas; exige uma postura realista sobre o nosso impacto.
O exemplo recente do relatório de progresso da Patagonia (2) ilustra bem este ponto. Recorda-nos que, para termos um impacto genuinamente positivo, precisamos de alinhar os nossos modelos de consumo com a capacidade regenerativa do planeta. É um convite à honestidade e à ação prática.
Esta é uma abordagem que não se limita a conservar, mas que procura regenerar. Acreditamos que a integração de soluções inspiradas na natureza deve ser fluida e acessível, transformando o nosso quotidiano.
Isto traduz-se em levar a vitalidade do mundo natural para onde passamos a maior parte do nosso tempo. Seja em meio urbano ou rural, o foco é a integração orgânica: criar espaços comuns mais verdes; desenvolver escolas que transformem o contacto com a Natureza numa ferramenta de aprendizagem; devolver às populações a fruição dos nossos rios, albufeiras ou lagoas, regenerar territórios e promover novas formas de atividades económicas, com uma abordagem assente nos princípios da ecologia.
Para tornar esta visão tangível, na NB Living atuamos em três áreas, profundamente interligadas entre si:
projeto, onde desenhamos e implementamos soluções práticas e resilientes;
consultoria, onde avaliamos a viabilidade e o impacto estratégico de cada intervenção;
comunicação, na qual damos voz e clareza ao “porquê” e ao “como”, ajudando a partilhar o valor destas transformações.
O nosso desejo é que este nosso caminho seja adotado e se torne de todos. Mais do que sermos pioneiros, assumimos com entusiasmo a responsabilidade de liderar pela prática, provando que é possível unir a eficácia económica à regeneração do mundo natural.
A nossa diferença é trazer de volta às nossas vidas aquilo de que sempre fizemos parte: a Natureza.
Dinis Marques
(1) ESG é uma sigla em inglês de Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança), utilizada para medir as práticas de sustentabilidade e ética de uma empresa. (2) Patagonia, “Work in Progress. Impact Report.,” Patagonia, 2025.
Durante décadas, o progresso urbano foi sinónimo de cimento e alcatrão. Nas cidades, mas também nas vilas e aldeias, se bem que a outra escala. Criou-se uma "crosta" artificial sobre o solo, ignorando o ciclo natural da água e da terra. Em boa verdade, ignorámos tudo, até o nosso bem-estar.
Apesar de continuarmos a pagar um preço elevado por essas decisões, aparentemente nada nos demove de continuar a espalhar carpetes asfaltadas por todo o lado, garantindo a nossa “comodidade”.
Mas uma das perguntas que se pode fazer é: Será assim tão cómodo viver nestas condições que criámos?
Podemos assumir que a impermeabilização excessiva dos meios urbanos é um catalisador de crises ambientais e estruturais, e um dos primeiros sinais de alarme chega com a chuva. Sem solo poroso para se infiltrar, a água acumula-se nas superfícies, sobrecarregando os sistemas de drenagem e resultando em inundações e cheias rápidas. Mas o problema persiste mesmo quando não chove e o sol brilha, pois o alcatrão absorve a radiação solar, criando ilhas de calor que tornam o ambiente urbano sufocante. Com chuva é chato, com sol é chato, em que ficamos?
No subsolo, o cenário não é melhor, pois este é impedido de se reabastecer de água, criando desequilíbrio nas taxas de humidade, que afeta a vegetação e cria outros tipos de riscos estruturais, como a erosão, os abatimentos de terras, as fissuras em edifícios e a queda de árvores.
Os impactos na biodiversidade urbana são enormes e evidentes: onde há betão, não há habitats.
O custo desta “paisagem cinzenta” transcende a esfera ambiental, afeta profundamente o tecido social,ou seja, afeta as pessoas e não contribui para a nossa qualidade de vida, apesar de ignorarmos ou nem nos apercebermos. As duas opções são assustadoras.
Ao desenharmos cidades à medida dos automóveis, esquecemo-nos da escala humana. Esta inversão de prioridades confiscou-nos o espaço público, transformando o que deveria ser um palco de convivência e encontro em meros corredores de tráfego e stress. O impacto na saúde mental e no sentido de pertença é devastador, atingindo desproporcionalmente os mais vulneráveis: roubamos às crianças a autonomia, a liberdade e o direito de brincar na rua, e condenamos os idosos ao isolamento e à solidão.
É neste cenário de urgência que o conceito de Livable Streets ("ruas com vida") ganha força e se materializa. Trata-se de uma mudança profunda, que consiste em: devolver a rua às pessoas, transformando o que antes eram apenas corredores de tráfego em espaços seguros, caminháveis e de encontro.
Esta revolução urbana já é visível em Barcelona, onde o projeto dos Superblocks converteu cruzamentos rodoviários em praças de convívio. Ou em Pontevedra, em Espanha, que baniu os carros do centro da cidade para dar prioridade total aos peões.
A proteção dos mais vulneráveis, como crianças e idosos, também está presente nestas mudanças, como vemos nas Rues aux Écoles em Paris, que substituíram o alcatrão por vegetação e segurança à porta das escolas.
Numa escala ainda mais ambiciosa, o projeto Cheonggyecheon, em Seul, provou o impensável: demoliu uma autoestrada para "destapar" um rio antigo, reduzindo a temperatura local e trazendo a natureza de volta ao coração da cidade.
Os erros urbanísticos do passado não são sentenças definitivas. Pelo contrário, são desafios reversíveis. Com a necessária coragem política e uma estratégia de longo prazo, temos enquanto sociedade o poder de repensar as nossas cidades, vilas e aldeias, para que possam responder melhor às nossas necessidades.
O caminho passa inevitavelmente pela implementação de nature-based solutions (soluções de base natural), removendo betão e transformando ambientes artificiais e desumanizados em ecossistemas vivos, nos quais precisamos de nos reintegrar e de reaprender a viver.
Investir na renaturalização das cidades é investir no nosso próprio equilíbrio físico e psicológico, é investir na nossa segurança, é investir no futuro.